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Política Opinião

Como transformar uma investigação judicial em ditadura, uma fuga em resistência e um político investigado em herói da liberdade?

A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil reacende o debate sobre perseguição política, Justiça e o uso da narrativa de ditadura. Leia a análise.

Foto: Imagem gerada por IA.

Há uma espécie de realismo mágico na política brasileira. Mas, diferentemente do universo criado por Gabriel García Márquez, onde o extraordinário amplia nossa compreensão da realidade, a fantasia produzida pelo bolsonarismo procura justamente impedir que a realidade seja compreendida. Depois de perder as eleições presidenciais, Flávio Bolsonaro deixou o país em meio a uma investigação judicial. Seus aliados, entretanto, começaram a apresentar sua saída como a fuga de um perseguido político. Bastaram algumas palavras para transformar o investigado em vítima, uma decisão judicial em ato de tirania e a viagem para os Estados Unidos em resistência à ditadura.

Afinal, de qual ditadura Flávio Bolsonaro fugiu?

Daquela que permitiu sua candidatura à Presidência da República? Que lhe assegurou o direito de realizar comícios, participar de debates, atacar adversários e mobilizar milhões de eleitores? Da ditadura onde recebeu quase 60 milhões de votos e esteve muito próximo de conquistar o governo?

Não parece estranho que alguém tenha conseguido disputar livremente a Presidência de uma República que seus aliados insistem em apresentar como uma ditadura?

A contradição não incomoda os fabricantes dessa narrativa. Seu objetivo não é explicar os acontecimentos, mas produzir crenças. A realidade deve se adaptar às convicções, nunca o contrário. É o velho método de transformar opiniões em verdades inquestionáveis, alimentando o ressentimento de uma parcela da população que aprendeu a reconhecer como inimigo qualquer instituição que contrarie seus interesses.

Na segunda-feira, 26 de outubro, Flávio Bolsonaro foi intimado a entregar seus passaportes por determinação do ministro Alexandre de Moraes, após solicitação da Polícia Federal. O senador é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, acusações que nega. A PF havia identificado risco de saída do país e solicitado medidas cautelares ao Supremo Tribunal Federal.

No dia seguinte, sem cumprir a determinação de entrega dos documentos, Flávio deixou o Brasil. A Polícia Federal informou posteriormente que não havia registro oficial de sua passagem pelos postos de controle migratório brasileiros e que investigava as circunstâncias do descumprimento da decisão judicial. A corporação também esclareceu que as restrições relativas aos passaportes, isoladamente, não caracterizavam a condição de foragido.

Esses são os acontecimentos conhecidos. O restante pertence à disputa política em torno de seus significados.

Para os defensores do senador, a investigação passou a ser apresentada como perseguição. O que exigiria esclarecimentos jurídicos tornou-se uma epopeia de resistência. O político que deveria explicar sua conduta ganhou a oportunidade de representar o papel de vítima de um poder supostamente absoluto.

Não é novidade. O bolsonarismo desenvolveu uma extraordinária capacidade de inverter o sentido das palavras. Quem defende instituições democráticas é apresentado como inimigo da liberdade. Quem ataca essas instituições se apresenta como seu defensor. Quem exige respeito às leis é acusado de autoritarismo. Quem se recusa a reconhecer a legitimidade das decisões institucionais reivindica para si o título de democrata.

Como em 1984, de George Orwell, as palavras parecem perder sua relação com as coisas. A linguagem deixa de ajudar a compreender o mundo e passa a servir à fabricação de uma realidade conveniente. Não se trata de afirmar que vivemos na sociedade totalitária imaginada por Orwell. A questão é outra: quando chamar uma investigação de perseguição basta para convencer, a linguagem se torna instrumento de mistificação.

A expressão utilizada pelo próprio Flávio é exemplar. Ao relatar sua intimação, referiu-se à “Polícia Federal do Lula”. Como se uma instituição de Estado fosse propriedade particular do presidente da República. Como se policiais federais, investigações e decisões judiciais fossem manifestações da vontade pessoal de um adversário político.

A estratégia é simples. Primeiro, transforma-se uma instituição em inimigo. Depois, apresenta-se qualquer ação dessa instituição como perseguição. Por fim, utiliza-se a perseguição imaginada para justificar a conduta do perseguido.

O raciocínio é circular, mas funciona porque se alimenta de crenças anteriores. Se Flávio é investigado, a investigação é política. Se a Justiça determina uma medida cautelar, o país vive uma ditadura. Se ele deixa o Brasil, sua saída comprova a perseguição. Não importa o que aconteceu. A conclusão antecede os fatos.

É uma forma de pensar que dispensa o trabalho de conhecer. Basta acreditar.

Talvez por isso seja tão importante recuperar o sentido histórico das palavras. O Brasil conheceu uma ditadura entre 1964 e 1985. Conheceu a censura, a tortura, os assassinatos políticos, as cassações de mandatos e o exílio de cidadãos perseguidos por suas ideias e atividades políticas. Homens e mulheres foram obrigados a abandonar suas famílias, suas profissões e seu país porque enfrentavam um regime que suprimiu direitos fundamentais.

O exílio não era uma escolha confortável. Era, muitas vezes, a alternativa à prisão, à tortura ou à morte.

O que há de semelhante entre essa experiência e a situação de um senador que acaba de disputar a Presidência da República, permanece no exercício de seus direitos políticos e é investigado por suspeitas de crimes comuns?

A comparação não resiste a um exame minimamente rigoroso.

Isso não significa que a Justiça brasileira esteja acima de críticas. Nenhuma instituição está. Decisões judiciais podem ser arbitrárias, investigações podem conter irregularidades e todo cidadão tem direito à presunção de inocência, ao contraditório e à ampla defesa. Esses direitos não devem depender de nossas simpatias políticas. Valem para Flávio Bolsonaro, para seus adversários e para qualquer brasileiro.

Mas há uma diferença entre denunciar uma arbitrariedade demonstrável e chamar de ditadura toda decisão que contraria os interesses de um grupo político.

É justamente essa diferença que o discurso da perseguição procura apagar.

Em A peste, Albert Camus constrói uma narrativa sobre uma cidade atingida por uma doença que obriga seus habitantes a confrontar o sofrimento, o medo e suas responsabilidades diante dos outros. A peste também pode ser lida como uma imagem das forças que ameaçam a convivência humana. Não é difícil reconhecer algo dessa atmosfera quando o medo e o ressentimento passam a orientar a interpretação dos acontecimentos políticos.

A peste das certezas absolutas produz indivíduos incapazes de hesitar. Para eles, não existem fatos que mereçam investigação, apenas acontecimentos que confirmam aquilo em que já acreditam. O adversário não pode estar certo. A instituição que o contraria não pode ser legítima. A democracia só merece esse nome quando assegura a vitória de seu grupo.

Não se trata apenas de uma disputa sobre Flávio Bolsonaro. Trata-se de uma forma de produzir subjetividades políticas.

O bolsonarismo não precisa demonstrar que o Brasil vive sob uma ditadura. Precisa fazer seus seguidores sentirem que vivem sob uma ditadura. Para isso, mobiliza imagens de perseguição, discursos de vitimização e uma guerra permanente contra inimigos que estariam por toda parte. O cidadão deixa de avaliar acontecimentos e passa a reconhecer sinais de uma ameaça que já estava convencido de existir.

Assim, uma investigação judicial deixa de ser um procedimento sujeito a regras, provas e possibilidades de contestação. Transforma-se em mais um capítulo de uma batalha imaginária entre o bem e o mal.

Quem ganha com essa mistificação?

Certamente não a democracia. Tampouco os cidadãos que desejam instituições capazes de investigar a corrupção, combater a violência e assegurar direitos. Quando um político consegue apresentar qualquer cobrança institucional como perseguição, a responsabilização pública passa a ser tratada como injustiça. Cria-se uma espécie de privilégio simbólico: determinados líderes não deveriam responder à Justiça porque representam, supostamente, a vontade de milhões de pessoas.

Mas receber milhões de votos não coloca ninguém acima das leis.

A soberania popular não se confunde com a vontade particular de um governante ou de um candidato. Uma democracia não é apenas um sistema que permite escolher representantes. É também uma forma de limitar o poder, proteger direitos, assegurar a participação popular e impedir que os interesses privados se confundam com o Estado.

Flávio Bolsonaro teve o direito de disputar a Presidência. Foi derrotado por uma decisão dos eleitores. Permanece com o direito de defender sua inocência e questionar judicialmente todas as medidas que considerar abusivas. Nada disso é incompatível com a democracia. Ao contrário, são garantias que dependem de sua existência.

O que não se pode aceitar sem questionamento é que a linguagem da resistência à ditadura seja utilizada para encobrir as circunstâncias de uma saída do país realizada em meio ao descumprimento de uma determinação judicial.

Talvez García Márquez compreendesse a força literária desse episódio. Em Macondo, os acontecimentos extraordinários convivem com personagens que parecem incapazes de escapar à repetição de suas próprias histórias. No Brasil, entretanto, não podemos permitir que o realismo fantástico substitua a responsabilidade política.

Porque há uma diferença entre imaginar mundos e inventar desculpas para não responder pelos acontecimentos deste mundo.

A literatura pode ampliar nossa sensibilidade e nos ensinar a perceber realidades que o senso comum não alcança. A mistificação política faz o movimento contrário. Empobrece nossa experiência, reduz a complexidade dos fatos e nos aprisiona em certezas confortáveis.

Flávio Bolsonaro não demonstrou ter fugido de uma ditadura. Os fatos conhecidos apontam para uma saída do Brasil em circunstâncias que a Polícia Federal ainda investiga, após uma decisão judicial que o proibia de viajar.

Transformar esse episódio em exílio político não torna a narrativa verdadeira. Apenas revela o esforço de converter a própria Justiça em inimiga da liberdade.

E talvez seja esse o aspecto mais inquietante de toda a história. Não a capacidade de um político de inventar uma narrativa favorável a si mesmo, mas a disposição de tantos cidadãos de aceitá-la sem exigir provas.

A democracia exige algo mais difícil do que acreditar nos nossos líderes. Exige a capacidade de desconfiar deles, confrontar suas palavras com os acontecimentos e reconhecer que a liberdade não pode ser privilégio de quem exerce o poder.

Quem transforma toda investigação em perseguição não está defendendo a liberdade. Está tentando se libertar da obrigação de prestar contas.

Referências:

Polícia Federal.
Nota à imprensa, 28 de outubro de 2026. Informações oficiais sobre as medidas cautelares, o cancelamento dos passaportes e a investigação das circunstâncias da saída do senador.

https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/noticias/2026/10/nota-a-imprensa-3

Agência Brasil.
PF investiga circunstâncias da fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil. 28 de outubro de 2026.

https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-10/pf-investiga-circunstancias-da-fuga-de-flavio-bolsonaro-do-brasil

Congresso em Foco. Aliados já começam a defender fuga de Flávio aos EUA: “repressão”. 28 de outubro de 2026.

https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/129267/aliados-ja-comecam-a-defender-fuga-de-flavio-aos-eua–repressao

Orwell, George. 1984. 1949.

Camus, Albert. A peste. 1947.

García Márquez, Gabriel. Cem anos de solidão. 1967.

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